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Dor e sono: por que uma noite mal dormida pode aumentar sua dor no dia seguinte?

29 de set.
5 min de leitura


Quem vive com dor persistente provavelmente já percebeu: depois de uma noite ruim, o corpo parece acordar diferente. A dor pode estar mais intensa, o cansaço maior e até tarefas que normalmente seriam simples parecem exigir mais esforço.

Durante muito tempo, alterações do sono foram interpretadas principalmente como uma consequência da dor: a pessoa sente dor e, por isso, dorme mal.

Hoje sabemos que essa relação é mais complexa.

As evidências mostram uma relação bidirecional entre sono e dor: alterações do sono estão prospectivamente associadas à ocorrência de dor, enquanto a própria dor também pode estar associada a alterações subsequentes do sono.

Isso significa que, quando avaliamos uma pessoa com dor persistente, talvez seja necessário olhar também para o que acontece durante a noite.

Não é apenas a dor que atrapalha o sono


Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2024 na revista Pain investigou justamente a relação temporal entre problemas de sono e dor musculoesquelética crônica.

A revisão reuniu 16 artigos, correspondentes a 11 populações de estudo, totalizando 116.746 participantes.

Os resultados mostraram que problemas de sono estiveram associados prospectivamente a maior risco de dor musculoesquelética crônica.

No curto prazo, problemas de sono foram associados a maior risco de dor musculoesquelética crônica (OR 1,64; IC95% 1,01–2,65). No acompanhamento de longo prazo, essa associação também esteve presente (OR 1,39; IC95% 1,21–1,59).

A relação também ocorreu na direção contrária: a presença de dor musculoesquelética crônica esteve associada ao aparecimento posterior de problemas de sono no curto prazo (OR 1,56; IC95% 1,02–2,38). Para os resultados de longo prazo nessa direção, entretanto, as evidências foram consideradas muito incertas.


Esses resultados são importantes porque mostram uma associação prospectiva nos dois sentidos, embora não permitam concluir que alterações do sono sejam, isoladamente, a causa da dor crônica.

Na prática clínica, isso reforça a importância de considerar sono e dor conjuntamente durante a avaliação.


E o que acontece de uma noite para o dia?

Outra revisão sistemática investigou uma questão ainda mais próxima da experiência cotidiana de quem vive com dor:

Como a noite de sono se relaciona com a dor sentida no dia seguinte?

Goossens e colaboradores analisaram 11 estudos, envolvendo 1.014 pessoas com dor musculoesquelética crônica.

Os estudos investigaram associações entre a qualidade do sono de uma noite e a intensidade da dor, considerando o que acontecia de um dia para o outro.

Nove dos estudos indicaram que a qualidade do sono noturno foi um preditor mais consistente da intensidade da dor no dia seguinte do que a relação inversa — isto é, a intensidade da dor predizendo o sono subsequente.

Isso não significa que uma noite ruim necessariamente causará mais dor no dia seguinte.

Significa que existe uma associação temporal relevante entre essas duas experiências e que o sono pode fornecer informações importantes para compreendermos as flutuações da dor ao longo dos dias.

Para quem trabalha com dor persistente, surge então uma pergunta importante:


Estamos perguntando aos nossos pacientes como eles estão dormindo?

Por que precisamos olhar além da intensidade da dor?

A dor crônica é uma experiência complexa e multidimensional.

Por isso, sua avaliação não deveria se restringir à localização, duração ou intensidade do sintoma.

Sono, atividade física, estado emocional, participação social, trabalho, rotina e envolvimento em atividades significativas podem contribuir para compreendermos o contexto no qual aquela experiência dolorosa acontece.

Isso também significa evitar explicações simplistas.

Os estudos apresentados aqui não demonstram que “dormir mal causa dor crônica” e muito menos que “dormir melhor” seja suficiente para resolver uma condição dolorosa persistente.

O que as evidências mostram é uma relação relevante e bidirecional entre sono e dor, que merece ser considerada dentro de uma avaliação multidimensional.


E onde entra a Terapia Ocupacional?

Para a Terapia Ocupacional, existe ainda uma questão particularmente importante:

dormir também é uma ocupação.

O Occupational Therapy Practice Framework – Fourth Edition (OTPF-4), da American Occupational Therapy Association, inclui descanso e sono (rest and sleep) entre as categorias de ocupação consideradas no domínio da Terapia Ocupacional.

Isso significa que não devemos compreender o sono de forma isolada.

Ele faz parte de uma organização cotidiana que envolve trabalho, autocuidado, atividade física, lazer, participação social, descanso e diferentes responsabilidades ocupacionais.

Quando uma pessoa com dor apresenta alterações do sono, portanto, perguntar apenas:

“Quantas horas você dorme?” pode ser insuficiente.

Precisamos compreender também:

Como está organizada sua rotina?

Em quais horários trabalha, descansa e realiza outras atividades?

Como a dor modifica seus horários?

Ela deixa de realizar atividades depois de uma noite ruim?

Existem períodos prolongados de inatividade durante o dia?

Há alternância entre dias de muita atividade e dias de pouca atividade?

Como estão distribuídas as demandas de trabalho, autocuidado, lazer e descanso?

Como o sono interfere na participação nas atividades que são importantes para essa pessoa?

É justamente aqui que o olhar para a ocupação se torna relevante.

O ciclo entre dor, sono e atividade

Imagine uma pessoa que dormiu mal.

No dia seguinte, ela acorda cansada e percebe maior intensidade de dor.

Por estar cansada e com mais dor, pode reduzir algumas atividades, permanecer mais tempo em repouso ou modificar completamente sua rotina.

Essas mudanças podem repercutir sobre trabalho, atividade física, lazer, participação social e até sobre a organização do próximo período de sono.

Esse exemplo não representa uma sequência inevitável nem significa que todas as pessoas com dor se comportem dessa maneira.

Ele serve para mostrar como sono, dor, fadiga, comportamento e participação ocupacional podem interagir no cotidiano.

Por isso, compreender apenas a intensidade da dor pode não ser suficiente.

Precisamos compreender o que está acontecendo com a vida daquela pessoa.

Melhorar o sono pode fazer parte do tratamento?

Reconhecer a relação entre sono e dor não significa que exista uma única intervenção capaz de modificar essa relação.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 reuniu 17 ensaios clínicos randomizados que investigaram diferentes intervenções e seus efeitos sobre a qualidade do sono em pessoas com dor crônica.

Os estudos envolveram estratégias diversas, incluindo exercício terapêutico, terapia cognitivo-comportamental e outras modalidades de tratamento.

Algumas intervenções apresentaram resultados favoráveis para o sono. Entretanto, houve grande heterogeneidade entre os tratamentos estudados, e os autores destacaram limitações importantes na literatura disponível.

Portanto, ainda não é possível concluir que exista uma única estratégia ou “dose” de tratamento adequada para melhorar o sono de todas as pessoas com dor crônica.

A mensagem clínica é outra: se o sono está comprometido, ele merece ser identificado, avaliado e considerado dentro do plano terapêutico.

Sono deve fazer parte da avaliação da pessoa com dor

Uma avaliação contemporânea da dor não deveria se limitar a perguntar:

“Onde dói?”

ou

“Quanto dói?”

Precisamos também compreender:

“O que está acontecendo com a sua vida por causa dessa dor?”

E, diante das evidências atuais, outra pergunta merece fazer parte dessa conversa:

“Como você está dormindo?”

A resposta pode fornecer informações importantes sobre a experiência cotidiana da pessoa com dor e ajudar a construir intervenções mais coerentes com aquilo que realmente está acontecendo em sua vida.

Na Terapia Ocupacional, esse olhar é particularmente importante porque nosso objeto de análise não é apenas o sintoma.

É também como a pessoa consegue — ou deixa de conseguir — viver, descansar, trabalhar, cuidar de si e participar das ocupações que dão sentido à sua vida.



Referências

RUNGE, N. et al. The bidirectional relationship between sleep problems and chronic musculoskeletal pain: a systematic review with meta-analysis. Pain. 2024;165(11):2455–2467. DOI: 10.1097/j.pain.0000000000003279.

GOOSSENS, Z. et al. Day-to-day associations between pain intensity and sleep outcomes in an adult chronic musculoskeletal pain population: A systematic review. Sleep Medicine Reviews. 2025;79:102013. DOI: 10.1016/j.smrv.2024.102013.

NAVARRO-LEDESMA, S. et al. Impact of physical therapy techniques and common interventions on sleep quality in patients with chronic pain: A systematic review. Sleep Medicine Reviews. 2024;76:101937. DOI: 10.1016/j.smrv.2024.101937.

AMERICAN OCCUPATIONAL THERAPY ASSOCIATION. Occupational Therapy Practice Framework: Domain and Process—Fourth Edition. American Journal of Occupational Therapy. 2020;74(Suppl. 2):7412410010. DOI: 10.5014/ajot.2020.74S2001.

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