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História da Terapia Ocupacional no cuidado integral a pessoas com dor

  • 8 de fev.
  • 3 min de leitura

A história da Terapia Ocupacional (TO) no manejo da dor é marcada por um percurso consistente de amadurecimento científico, clínico e político, fortemente alinhado à compreensão biopsicossocial da dor e à centralidade da ocupação na vida das pessoas.

Os primeiros registros formais datam do final da década de 1970. Em 1978, ocorre a primeira menção documentada da Terapia Ocupacional em uma clínica de dor, apresentada por Grant na 10ª Conferência da Associação Australiana de Terapia Ocupacional. Esse marco inaugura o reconhecimento da TO como profissão relevante no cuidado de pessoas com dor persistente, ainda em um contexto predominantemente biomédico.

No início dos anos 1980, observa-se uma ampliação importante da produção acadêmica. Entre 1981 e 1983, Flower publica na American Journal of Occupational Therapy (AJOT) estudos sobre a contribuição da Terapia Ocupacional em equipes interdisciplinares ortopédicas e psiquiátricas para pessoas com dor crônica na coluna. No mesmo período, Milne, na Nova Zelândia, já discute o uso do Modelo Biopsicossocial na prática da TO, antecipando uma mudança paradigmática que viria a se consolidar nas décadas seguintes.

Entre 1984 e 1989, há um crescimento expressivo das evidências científicas. Surgem artigos sobre dor lombar (Caruso & Chan) e dor em extremidades (Cárdenas), além de trabalhos que explicitam o envolvimento da Terapia Ocupacional no manejo da dor (Strong, Giles e Allen). Em 1989, Strong publica um artigo educativo voltado a médicos, reforçando o papel da TO na abordagem da dor e ampliando o diálogo interprofissional.

A década de 1990 marca o aprofundamento das práticas clínicas. Entre 1990 e 1996, terapeutas ocupacionais passam a atuar de forma mais estruturada com populações específicas, como pessoas vivendo com HIV, utilizando intervenções grupais, estratégias de relaxamento e foco no desempenho ocupacional. Esse período culmina com o lançamento do livro “Chronic Pain: The OT Perspective” (Strong, 1996), uma obra seminal que consolida a perspectiva ocupacional no campo da dor crônica.

Paralelamente, entre 1994 e 2002, ocorre um avanço crucial na formação profissional. É criado o Currículo da IASP (International Association for the Study of Pain) para estudantes de Terapia Ocupacional e Fisioterapia, liderado por Anita Unruh. Em 2002, é publicado o livro “Pain, a Textbook for Therapists”, que se torna referência internacional e fortalece a base educacional interdisciplinar em dor.

A partir da década de 2010, a Terapia Ocupacional alcança um reconhecimento institucional mais robusto. Entre 2012 e 2024, são publicadas declarações oficiais de posição sobre o papel da TO no manejo da dor em países como Canadá, Estados Unidos e Austrália. Revisões e documentos atualizados, como Meredith et al. (2021) e o IASP OT Curriculum (2024), reafirmam a contribuição singular da Terapia Ocupacional, especialmente no que se refere à participação, autonomia, significado ocupacional e qualidade de vida.

Em 2021, a IASP inclui dois terapeutas ocupacionais - Michael Falcon e Luciana Buin - na equipe da força tarefa que se reuniu por quatro anos para determinar novas diretrizes do tratamento interdisciplinar na dor.

Por fim, 2025 representa um marco simbólico e concreto de consolidação e expansão do campo. Destacam-se capítulos dedicados ao manejo da dor em obras internacionais, como “Occupational Therapy for People Experiencing Illness, Injury or Impairment” (Strong, Robinson e Buin), e o lançamento do livro “Terapia Ocupacional no manejo da dor: Abordagens práticas e evidências científicas", organizado por Buin e De Souza, fortalecendo a produção científica e a identidade da Terapia Ocupacional na dor no contexto brasileiro.

Essa trajetória evidencia que a Terapia Ocupacional não apenas acompanhou a evolução do entendimento da dor, mas foi protagonista na construção de práticas centradas na pessoa, na ocupação e no viver com significado, consolidando-se hoje como uma área essencial no cuidado integral em dor.

 
 
 

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